Desde criança eu sou uma pessoa curiosa.

E quando digo curiosa, não estou falando de curiosidade sobre um assunto. Estou falando sobre tudo. Literalmente tudo.

Sabe aquela criança que fica perguntando “por quê?” sem parar até o adulto surtar? Era eu. Só que eu nunca parei de perguntar. Cresci e a coisa piorou. Cada resposta abria cinco perguntas novas e cada pergunta me levava pra um buraco de coelho diferente.

Minha cabeça funciona como um navegador com 97 abas abertas ao mesmo tempo.

Eu passo uma tarde inteira mergulhado em como funciona o sistema de refrigeração de um submarino nuclear e no dia seguinte estou obcecado com rituais funerários no Egito antigo.

Sem nenhuma conexão entre os dois. Só porque me deu vontade de saber.

Vou te dar 3 exemplos pra você entender o nível da coisa.

1. Orcas não são boazinhas

Quando uma orca encontra uma foca descansando num bloco de gelo, ela não ataca direto. Chama o grupo. O grupo inteiro nada em formação na direção do gelo, mergulha junto antes de chegar e cria uma onda que derruba a foca na água.

Mas elas não comem a foca na hora.

Na verdade, começam a brincar com ela. Jogam a foca de uma pra outra com a cauda, tipo ping-pong. Uma bate a foca com a nadadeira e lança ela uns 10 metros no ar. A outra já está posicionada do outro lado e faz a mesma coisa.

Os golpes vão afrouxando a pele da foca. Quando finalmente decidem comer, a pele descasca e elas chegam direto na gordura sem esforço.

Amaciaram a comida antes de comer.

E o mais louco: as orcas mais velhas ensinam essa técnica pros filhotes. Capturam a foca, jogam pro filhote praticar, e quando ele perde a presa, a mãe recaptura e devolve.

Aula de caça com presa viva em alto mar.

2. Os egípcios levavam a morte mais a sério que a vida

Quando um faraó morria, o corpo passava por um ritual de mumificação de 70 dias. Removiam o cérebro pelo nariz com um gancho de bronze — pra eles o cérebro não valia nada. O que importava era o coração, onde morava a essência da pessoa.

Depois removiam os órgãos e cobriam o corpo com natrão pra desidratar por 40 dias.

Mas a parte que me fascinou mesmo foi o que vinha “depois da morte”.

A alma precisava atravessar o Duat — o mundo dos mortos — e a prova final era a pesagem do coração. Colocavam o coração numa balança. Do outro lado, a pena de Maat, deusa da verdade. Se o coração fosse mais leve que a pena, a pessoa seguia pro paraíso. Se fosse mais pesado, era devorado por Ammit — uma criatura com cabeça de crocodilo e corpo de leão.

E a alma simplesmente deixava de existir. Não havia inferno. A pessoa acabava. Pra eles, o pior destino possível.

Quem ficava ali observando tudo? Seth. O deus do caos. O irmão que matou Osíris por inveja. A presença dele era um lembrete de que o caos está sempre à espreita, mesmo no momento mais sagrado da existência.

Fiquei semanas pesquisando cada detalhe desse ritual. Não me pergunte por quê. Não tem por quê.

3. Suas opiniões podem não ser suas

Estar em transe não é ficar com os olhos vidrados balançando pra frente e pra trás como aparece nos filmes. Na verdade, é um estado de foco intenso onde a mente consciente relaxa e o subconsciente fica mais receptivo a sugestões.

Você entra em transe várias vezes por dia. Quando dirige no automático sem lembrar do trajeto. Quando lê um livro e o mundo desaparece. Quando fica rolando o celular e quando vê já passou uma hora. Ou quando fica procurando seu óculos com eles já no seu rosto.

Na terapia, a hipnose usa esse estado pra acessar padrões que a pessoa não consegue mudar só com força de vontade. Alguns especialistas dizem que muita coisa que a terapia convencional leva anos pra tratar, a hipnoterapia resolve em poucas sessões — porque vai direto na raiz.

Se é verdade ou não, não sei. Mas enfim…

Porém o lado sombrio da hipnose é o que me manteve acordado por noites.

Veja: se o subconsciente é sugestionável quando a mente consciente relaxa, qualquer meio que consiga fazer isso com grandes grupos de pessoas ao mesmo tempo se torna uma ferramenta de controle poderosa.

A propaganda nazista de Goebbels, por exemplo, era construída sobre repetição e sobrecarga emocional que colocavam populações inteiras num estado de sugestionabilidade coletiva.

Uma mensagem repetida mil vezes deixa de parecer mensagem externa e passa a parecer pensamento próprio.

Acontece até hoje com algoritmos das redes sociais que selecionam o que você vê pra reforçar o que já acredita.

Fascinante? Pra mim, absurdamente. Útil pra minha vida naquele momento? Nenhuma utilidade.

Mas eu precisava saber.

O problema de querer saber tudo

Poderia passar séculos dando exemplos. Sobre motores de foguete, rotas de especiarias, por que certos acordes musicais causam tristeza. Tenho esses buracos de coelho acumulados desde que me entendo por gente.

Mas essa curiosidade que nunca se satisfaz sempre foi uma maldição quando se tratava de ter uma profissão.

Eu nunca consegui me interessar por algo e focar ali pra sempre.

Por isso já fui de tudo nessa vida:

Já fui atendente de suporte técnico de internet — aquele cara que te pede pra desligar e religar o modem. Trabalhei numa fábrica de lacres para containers. Fui assistente técnico de equipamentos odontológicos, consertando cadeiras elétricas de dentista, compressores de caneta de alta rotação e autoclaves de esterilização — aprendi cada circuito daquela parafernalha toda.

Fui músico. Toquei guitarra e violão em bandas nas noites de Santos e da Baixada Santista. Sertanejo num bar na quinta, rock num pub no sábado, reggae num aniversário no domingo.

Fui técnico em redes de comunicação. Criei sites de nicho pra vender produtos de afiliado — e quase arranquei meus olhos escrevendo o décimo artigo sobre “os 10 melhores aspiradores robô de 2019”.

E no meio disso, fui gerente de uma transportadora de containers no Porto de Santos.

Ficava mais de 30 horas seguidas em operação, muitas na madrugada, com rádio Nextel e telefones tocando ao mesmo tempo. Discutindo com clientes que queriam seus containers pra ontem, armadores que mudavam navios de horário sem avisar, terminais que travavam por documentação e caminhoneiros que simplesmente não apareciam para o trabalho.

Só de lembrar me deixa nervoso.

Enfim… fiz tanta coisa que nem lembro mais.

Mas o padrão era sempre o mesmo: eu entrava empolgado, aprendia tudo, ficava bom naquilo, mas a monotonia da rotina e dos processos engessados faziam minha vontade de acordar para trabalhar morrer.

O lugar onde a curiosidade finalmente serviu pra alguma coisa

Até que eu encontrei um lugar onde essa curiosidade incessante virou matéria-prima em vez de defeito.

Hoje, o que eu faço na essência é simples: escrevo campanhas de e-mail pros meus clientes onde conto histórias sobre qualquer assunto e conecto isso com uma oferta que precisa ser vendida.

As orcas caçando focas podem virar um e-mail sobre estratégia de vendas. Os rituais egípcios podem virar uma história que conecta a produtos para pessoas barbudas. A hipnose pode virar um argumento sobre por que as pessoas compram por emoção e só depois justificam com lógica.

Qualquer coisa que me fascina pode ser conectada a uma oferta que gera dinheiro pro bolso dos meus clientes — e pro meu. E de quebra ainda mato essa curiosidade que me persegue desde criança.

Me encontrei nessa jornada há, pelo menos, 5 anos — o tempo mais longo que já me dediquei em uma única profissão.

Se existe emprego melhor no mundo, não sei qual é.

Mas hoje sinto que poderia fazer o que faço hoje enquanto minha mente estiver sã, meus dedos foram aptos a digitar minhas maluquices e, obviamente, minhas estratégias gerarem dinheiro para o negócio dos meus clientes.

E, depois de todos os caminhos errados que percorri, hoje posso dizer que me sinto realizado.

Finalmente 🙂

Alan Chiapetta

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