Faça persuasão como uma criança
Esse final de semana eu estava na praia com um amigo e meu afilhado de 8 anos.
O moleque estava na água se divertindo sozinho. Eu e o pai dele estávamos sentados na areia, cerveja na mão, sem a menor vontade de molhar o corpo.
O garoto queria o pai dentro do mar. E o pai não ia.
Começou chamando de longe, gritando pra acenar. Não funcionou. Veio até a areia, puxou o braço, fez birra. Também não funcionou. Voltou pra água bravo, ficou uns minutos pensando, e aí veio a sacada.
Virou pro pai e disse:
“Pai, vi uma arraia na água!”
Ninguém acreditou, claro. Naquela faixa da praia de Santos não aparece arraia, e todo mundo ali na areia sabia disso.
Mas eu dei corda pra ver onde a história ia.
Perguntei onde ele tinha visto. Ele apontou um canto qualquer. Perguntei o tamanho, e ele abriu os braços mostrando uma arraia do tamanho de um cachorro. Perguntei a cor, e depois de pensar um pouco ele disse que era marrom com pintinhas. O pai dele, rindo de canto de boca, fingia considerar a história.
O moleque insistiu.
Voltou três, quatro vezes na história da arraia, foi aumentando os detalhes, veio de novo puxar o braço do pai pedindo pra ele ir ver de perto. Foram uns 10 minutos nisso.
No fim, o pai entrou na água.
Não por causa da arraia, que nem ele acreditou que existia. Entrou porque o moleque foi insistente, e a história deu um motivo simpático pro pai ceder sem parecer que tinha cedido.
Uma criança de 8 anos, sem ter lido nada sobre vendas, sem curso de persuasão, sem saber o que é copy, fez exatamente o que um bom vendedor faz quando quer levar alguém de um ponto a outro.
E o mais engraçado é que isso não é nada novo.
Gary Halbert já falava disso há mais de 50 anos
Ele foi um dos copywriters mais respeitados da história da publicidade direta americana, apelidado de “Prince of Print” por escrever cartas de venda que eram enviadas pelo correio e geravam milhões de dólares muito antes da internet.
A carta mais famosa dele, a Coat of Arms Letter, foi escrita em 1971 e continuou sendo enviada por mais de 30 anos, num total estimado em 600 milhões de envios.
Essa carta vendia um relatório sobre o brasão da família do destinatário por dois dólares, e começava com uma abertura pessoal contando uma pequena história sobre a origem dos sobrenomes e o significado histórico daquele nome de família específico.
Só depois de montar esse contexto é que aparecia a oferta do relatório.
Cerca de 80% das cartas que Gary Halbert escreveu na vida começavam com uma história assim:
Uma cena, um personagem, uma situação. Só depois de prender a atenção do leitor é que ele oferecia o produto.
Numa entrevista com Michel Fortin, Gary Halbert explicou que história é a ferramenta mais poderosa de copy justamente porque a pessoa entra pelo enredo, se envolve, e quando percebe já está lendo sobre um produto que faz sentido dentro daquela história.
Não há resistência porque o leitor não sentiu que estava sendo vendido, sentiu que estava acompanhando algo interessante.
Ou seja:
Aquilo que meu afilhado fez instintivamente pra tirar o pai da areia é a mesma estrutura que um dos caras mais estudados da história da publicidade direta usava pra vender milhões de dólares em produtos por carta.
História primeiro. Oferta depois. E se não colar de primeira, insiste de outro jeito.
Por que isso importa pra quem vende pela internet
Tem muito dono de negócio digital que já leu livro de copy, fez curso de escrita persuasiva, aprendeu meia dúzia de gatilhos mentais, e mesmo assim continua mandando e-mail seco pra lista — e não vende.
Abre o e-mail com a oferta. Apresenta o produto no primeiro parágrafo. Lista benefícios. Coloca um desconto no final. Envia. Não vende quase nada. (Ou vende se a oferta for MUITO boa)
Fica quieto por duas ou três semanas achando que “a lista está fria”, e quando volta a aparecer manda outro e-mail igualzinho, com uma promoção um pouco mais agressiva, esperando um resultado diferente.
Faltou o que o moleque de 8 anos entendeu sozinho:
Uma história pra dar contexto ao convite. Algo que faça o leitor querer continuar lendo antes da oferta aparecer.
Não precisa ser uma história grandiosa.
Pode ser uma cena boba do fim de semana, um cliente que te fez uma pergunta curiosa, uma coisa que você observou numa conversa, ou até uma lembrança da infância.
O que importa é que a história transporte o leitor para o cenário, crie um insight sobre uma dor ou desejo dele e depois apresenta a oferta como solução.
Até que é bem simples, na verdade.
E quando o primeiro e-mail não vender, não é motivo pra sumir.
É motivo pra voltar com outra história, outro ângulo, outra forma de dizer a mesma coisa.
Foi assim que meu afilhado conseguiu o que queria, e é assim que os caras que vendem por e-mail há décadas continuam vendendo.
Gary Halbert fazia isso em 1971.
O moleque fez isso num sábado de sol aqui em Santos.
E provavelmente funciona porque o cérebro humano é o mesmo desde sempre — gosta de ser levado por uma história antes de ser convidado a fazer qualquer coisa.
Se a sua lista não está comprando, antes de achar que ela esfriou, olha o último e-mail que você mandou e se pergunta onde está a história dentro dele.
Se não tiver nenhuma, talvez seja por aí 😉
Alan Chiapetta