Outro dia eu estava procurando um documento no computador e esbarrei num bloco de notas que tinha esquecido que existia.
Eram as metas que eu escrevi ao longo do ano passado.
Abri por curiosidade. E o que encontrei não foi nada bonito.
De todas as metas que eu tinha escrito ali, não bati quase nenhuma.
A primeira reação foi uma certa pontada de frustração. Bateu aquele sentimento de “mais um ano que passou e eu não fiz o que disse que ia fazer”. Todo mundo que já escreveu uma lista de metas sabe do que estou falando.
Mas ao invés de fechar o arquivo e fingir que não vi, fiquei olhando pra aquela lista tentando entender o que tinha dado errado.
E percebi uma coisa que mudou a forma como pretendo encarar as coisas daqui pra frente.
Primeiro: Falta de vontade não era a resposta
Eu realmente queria cumprir aquelas metas. Cada uma delas fazia sentido quando escrevi. Não eram metas absurdas, do tipo “faturar 10 milhões” ou “ficar com o shape do Ramon Dino sem tomar ‘suco’”. Eram coisas dentro da minha realidade.
Mas eu coloquei metas demais ao mesmo tempo.
E o que acontece quando você tenta mudar muita coisa ao mesmo tempo? Você não muda nada.
Fiquei analisando meta por meta e separei em dois grupos: as que eu cumpri e as que não cumpri.
A diferença entre os dois grupos?
As que eu cumpri tinham virado hábito. As que não cumpri, não.
Parece óbvio quando você lê assim. Mas na hora de planejar o ano, ninguém pensa dessa forma. Você escreve a meta como se o ato de escrever já garantisse que ela vai acontecer. Só que não garante nada.
Minha suposição, então é: a meta só vira parte da sua rotina a ponto de você fazer no automático, sem precisar de motivação nem de convencimento, quando ela vira hábito.
E quando não vira, acontece o que aconteceu comigo: você troca a meta por qualquer outra coisa que pareça mais urgente ou mais fácil no momento.
O que virou hábito e o que não virou
Vou te dar um exemplo.
Uma das minhas metas era manter a produção de campanhas de marketing para os meus clientes num ritmo diário. Essa meta eu bati com folga. Faço todo dia com os pés nas costas. Nem preciso pensar, sento e faço.
Por quê? Porque virou hábito há muito tempo. É tão automático quanto escovar os dentes.
Talvez funcionou por ser uma obrigação e também ser o que coloca comida na minha mesa? Talvez. Mas ainda assim é um hábito.
Agora, ir à academia. Essa era outra meta. E durante um bom tempo, estava funcionando. Eu ia todo dia às 08h45, sem falta. Tinha virado hábito de verdade.
Até que tive uma lesão na coluna que me deixou meses parado. Quando digo meses, estou sendo gentil. Passei quase 12 meses praticamente deitado na cama com uma hérnia de disco que inflamou o ciático a ponto de nem morfina resolver a dor.
Quando finalmente melhorei o suficiente pra poder voltar, o hábito já tinha morrido. E reconstruir um hábito que morreu é muito mais difícil do que criar um do zero — porque agora além de ter que criar a rotina de novo, você ainda carrega o peso psicológico de ter parado.
Outra meta era prospectar mais clientes. Essa nunca chegou nem perto de virar hábito. Depois que fiquei confortável com minha agenda e com o faturamento que já tinha, somado ao fato de ter bastante tempo livre, fui empurrando com a barriga. Sempre tinha algo “mais importante” pra fazer do que arrumar mais trabalho.
Percebe o padrão?
O que era hábito, aconteceu sem esforço. O que não era, foi substituído por qualquer outra coisa ao longo do ano. E no final, quando abri aquele bloco de notas, que a ficha caiu.
O que eu fazia no lugar das metas
Essa é a parte que mais me incomodou quando parei pra pensar.
Nos horários em que eu deveria estar prospectando ou na academia, o que eu estava fazendo?
Trocentas coisas que pareciam importantes mas não eram.
Respondendo mensagens que podiam esperar, mexendo em ferramentas que já estavam funcionando, reorganizando coisas que não precisavam ser reorganizadas. Qualquer coisa que me desse a sensação de estar sendo produtivo sem exigir o esforço real das metas que eu estava evitando.
O cérebro é especialista em te dar a sensação de produtividade enquanto você evita o que realmente vai fazer você avançar. Você passa o dia inteiro ocupado e chega no final achando que trabalhou muito — mas quando olha pra lista de metas, nenhuma delas andou.
E a raiz disso, no meu caso?
Eu tinha coisas demais competindo pela minha atenção.
Quando tudo é prioridade, nada é prioridade.
Agora é hora de testar uma nova abordagem
Depois de encarar aquele bloco de notas por um bom tempo, tomei uma decisão.
Vou reduzir minha rotina ao mínimo de coisas importantes possíveis. Não o mínimo confortável — o mínimo real. Só o que de fato move a minhas metas pra frente.
De manhã: academia e trabalho. Cuidar do corpo e produzir as campanhas pros meus clientes. Nada mais.
De tarde: prospecção e estudo. Buscar novos clientes e adquirir ou aprimorar minhas habilidades. Nada mais.
De noite: descompressão. Descansar, ficar com as pessoas que amo, fazer coisas que recarregam minha energia. Sem culpa.
Três blocos, cada um com um propósito claro. E tudo que não se encaixa nesses blocos vai ter que esperar — ou simplesmente não vai ser feito.
Parece radical? Talvez.
Mas a alternativa é o que eu vivi no ano passado: fazer um pouco de tudo e não completar quase nada.
Me parece um bom teste.
Derrubando dominós
Tem um livro chamado “A Única Coisa” de Gary Keller que explica melhor por que essa abordagem poderá funcionar.
A ideia central do livro é uma pergunta: “Qual é a única coisa que eu posso fazer, de modo que ao fazê-la tudo o mais se torne mais fácil ou desnecessário?”
Parece simples demais pra funcionar. Mas o conceito vai mais fundo do que parece.
O que Keller descobriu estudando pessoas extraordinariamente produtivas é que elas não fazem mais coisas que as outras. Elas fazem menos. Muito menos. Mas as poucas coisas que fazem são as certas, na ordem certa.
Ele usa a imagem de dominós pra explicar: um dominó pequeno, quando cai, derruba um dominó um pouco maior. Que derruba um maior ainda. E assim por diante. O segredo é encontrar o primeiro e menor dominó e dar um peteleco nele.
E é exatamente o erro que acho que cometi no ano passado. Eu tentei empurrar todos os dominós ao mesmo tempo. Academia, prospecção, novos projetos, estudos e mais trocentas coisas pessoais que não tive coragem de dizer aqui, tudo de uma vez. E nenhum desses dominós caiu.
O que talvez eu deveria ter feito — e o que vou tentar fazer agora — é colocar as coisas em fila. Pegar a primeira, transformar em hábito até ela rodar sozinha, e só então passar pra próxima.
No meu caso, o primeiro dominó é a academia. Porque se meu corpo não funciona, nada mais funciona. Eu já senti isso na pele durante 12 meses deitado numa cama.
Quando a academia virar hábito de novo — e vai virar, porque já foi uma vez — o próximo dominó é a prospecção. E quando a prospecção virar hábito, aí sim eu posso pensar em adicionar mais alguma coisa.
Um de cada vez, na ordem certa, até cada um virar tão automático que não precise mais de esforço consciente pra acontecer.
Vai funcionar?
Só Deus sabe. Mas não custa tentar 🙂
Se você se identificou — se também tem uma lista de metas do ano passado que não bateu, ou se está tentando mudar muita coisa ao mesmo tempo sem conseguir mudar nenhuma — talvez a resposta não seja se esforçar mais.
Talvez a resposta seja fazer menos. Escolher o primeiro dominó e focar nele até cair. E só quando ele cair, passar pro seguinte.
Não é sexy e não dá pra postar no Instagram (até dá, mas só uso aquela rede pra assistir memes enquanto estou no “trono”). Mas acho que funciona.
Se tentar me fala.
Alan Chiapetta